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É absurdo ainda ver machismo e misoginia na vida e na infraestrutura

O absurdo que ainda é precisar discutir machismo e misoginia na vida e na infraestrutura


Isadora Cohen

Luisa Dubourcq Santana

Publicado originalmente no JOTA



Recentemente, tomamos conhecimento de um vídeo, que circula na internet, a respeito do acidente ocorrido nesta semana, nas obras da Linha 6 do Metrô em São Paulo, que perfurou tubulação de esgoto da Sabesp. O vídeo sugere – aliás, deixa muito explícito – que o acidente foi causado em razão da atuação protagonista de diversas mulheres no projeto.


Não se pretende, aqui, entrar no mérito da investigação das responsabilidades pelo ocorrido, o que cabe, unicamente, às autoridades incumbidas de fiscalizar e conduzir o tema.


E, apesar do amadorismo da “produção”, e do fato de que, muitas vezes, a melhor saída para ataques gratuitos e infundados é o silêncio, não podemos nos calar diante de tantas atrocidades manifestadas no vídeo em questão. Não mais.


As mulheres já foram silenciadas por gerações, e em muitos locais ainda continuam a sê-lo. Apenas em 1879 pudemos ingressar nas faculdades. Votar, apenas em 1932. O espanto quanto a esses dados históricos só não é maior do que a indignação que nos toma ao ver que, ainda hoje, é preciso dedicar tempo e energia a debater o óbvio.


Não podemos ser coniventes com esse tipo de abordagem. Vale lembrar que misoginia praticada na internet é crime, assim como também são absolutamente reprováveis quaisquer condutas machistas e de ódio praticadas contra uma mulher individualmente ou contra todas elas, no coletivo.


Preferimos, contudo, trabalhar com fatos.


De acordo com dados da Folha[1], as mulheres são maioria (54,5%) dos matriculados em programas de mestrado e doutorado do país. Apesar de mais qualificadas, dados do mercado de trabalho apontam para um injustificável gap salarial entre homens e mulheres. Além disso, segundo levantamento da organização Women on Board, apenas 12% das cadeiras de Conselho de Administração das empresas listadas na B3 (12,7% quando se trata das empresas do setor de infraestrutura) são ocupadas por mulheres, enquanto 43,5% delas não têm sequer uma mulher em seus assentos.


Essa falta de representatividade e tradição histórica é o que leva a ataques infelizes e inverídicos como esse.


Mas nadar contra a corrente nunca nos intimidou. Apenas para ficarmos no setor de infraestrutura, massacrado pelo vídeo em questão, os principais programas de parceria público-privada no país possuem mulheres em seu nível mais alto ou em cargos de gestão de relevância – São Paulo, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais e Bahia, além da União, são apenas alguns dos louváveis exemplos de lideranças femininas responsáveis por concretizar parcela bastante significativa dos projetos de concessão e PPP no país, captando e aplicando bilhões de reais em investimentos que beneficiam a população como um todo.


Apesar das ofensas diárias, a exemplo deste preconceituoso vídeo, essas e tantas outras mulheres concretizam e se dedicam arduamente a transformar o cenário da infraestrutura no Brasil.


Associações como o Infra Women Brazil, que reúne mais de 700 mulheres militantes no setor da infraestrutura em todas as regiões do país, surgem para tentar transformar esta realidade, buscando unir forças contra esta postura retrógrada que associa gênero a resultado. Espaços como estes conferem às mulheres um ambiente fértil para interagir, abordar os abusos misóginos sofridos e, inclusive, repudiar vídeos e ataques como o vivenciado nesta semana.


Esta coluna preferiria dedicar o espaço a debater assuntos relevantes para o futuro e o presente do país, como os desafios enfrentados para viabilizar o crescimento da infraestrutura em um cenário de crise, as inovações tecnológicas surgidas para incentivar o desenvolvimento socioeconômico a partir das concessões e parcerias e tantos outros temas que ocupam os jornais e as mentes dos profissionais do setor.


Não há como silenciar, contudo, diante de abusos e ataques que buscam ofuscar e diminuir mulheres que, dia após dia, enfrentam grandiosamente a luta que é trabalhar em meio a tantas adversidades, pensando e responsabilizando-se por cada metro cúbico de concreto colocado de norte a sul.

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